sexta-feira, março 16

Religião e Medo: O problema da Cruz


Gostaria de reproduzir o comentário de Concí Sales:

A cruz é um absurdo do ponto de vista teológico. Nenhum Deus precisaria matar um ser humano para supostamente dar vida a quem quer que fosse. Isso é claramente papo de sacerdote doido para satisfazer seu instinto sádico do prazer do sangue, além de gozar com o sofrimento da vítima. 

Cruz representa a maldade humana no grau máximo, a violência duplamente qualificada. Segundo Foucault, a sacralização da violência é a sua instituição como memória, a chamada violência exemplar. 

Os religiosos usam lúgubres e tétricos símbolos de morte para provocar inconscientemente medo, repulsa e ódio. Trata-se de manipulação sentimental e dominação via controle e repressão sexual. Pura escravização das emoções e dos afetos. 

As religiões são peritas nisso e, para tanto, valorizam em excesso os símbolos. Os crucifixos e o seu "deus" morto, ensanguentado, imediatamente estimulam no inconsciente do devoto o medo do castigo que lhe aguarda. 

A mensagem sublimar do “Deus não poupou sequer seu próprio filho” é: "O que Ele não será capaz de fazer conosco, que o matamos"? Além, é claro, de uma contrição meio que forçada: "Oh, Jesus, sofrestes tanto por amor de mim, e eu não quero sofrer coisa alguma por amor de Vós"! 

Eram com tais "piedosas leituras" que as freiras nos catequizavam no meu tempo de menina. Mas eu tinha uma colega (aliás depois expulsa) que dizia: "Oh, Jesus, sofrestes tanto por amor de mim, não deixarias que eu sofresse DESNECESSARIAMENTE, não é mesmo? Faça com que possamos ir à festa, eu e a minha amiguinha Concí”.

E eu, puritana, a achava tão desavergonhada! Mas fugia, e ia! Depois voltávamos muito serelepes e agradecíamos ao nosso "bom" amigo ensanguentado e torturado. Bons tempos.


Contudo, devemos também pensar numa contra proposta.

Hoje, as teologias vulgarmente chamadas "modernistas", teologias estas fruto das reflexões filosóficas do século XX como Barth, Bultmann, Rahner, Vigil, Rubio, Queiruga e outros, ao contrário desta leitura "fundamentalista" de nossa irmã Concí, trabalham a simbologia da cruz. Etienne Babut,  autor do clássico livro: O Deus poderosamente fraco da bíblia, já contra-argumenta sobre esse tipo de leitura que vê na cruz um espírito de morte e condenação. De acordo com Babut, a Cruz representa simbolicamente o cristianismo não pelo seu aspecto fético, mas justamente para mostrar que o Deus cristão é um Deus que sofreu o que todos os marginalizados, empobrecidos, excluídos, banidos e torturados vivem. É um Deus que não brinca de ser humano, mas assume na sua pele o que é ser perseguido e marginalizado. O poder do Deus cristão, ao contrário de muitos movimentos neo-pentecostais, não é o "Deus do Impossível" mas o "Deus fraco" para os fracos. Em hipótese alguma, vê-se a Cruz como um plano sanguinário de Deus para seu filho, mas a leitura de Babut, nos ajuda a compreender que um Deus que se compromete com os pobres não tem medo de enfrentar as consequências de sua opção, ou seja, aqueles que são torturados pela própria religião.

Gostaria de citar uma outra fonte que resignifica a Cruz como o símbolo próprio para o Cristianismo. Fr. José Carlos Pedroso é um Capuchinho, já idoso, autor da obra Olhos do Espírito. Nessa obra, Pedroso fala das tensões que compõem o mistério da vida: o positivo e o negativo, o masculino e o feminino, o bem e o mal e entre outras polaridades. Essas polaridades, não podem ser vistas como realidade isoladas ou mesmo como dualismos simplesmente. Como um bom junguiano, Pedroso as consideram como realidades inter-dependentes. A Cruz nada mais seria que um símbolo que essencialmente carrega as marcas da contradição. A haste horizontal remete ao horizonte humano, enquanto que a haste vertical ao mistério divino. A intersecção do vertical com o horizontal resulta na vida, como uma grande tensão entre o limite e a possibilidade absoluta. A Cruz simboliza vida e ressurreição, contudo a ressurreição pressupõe que assumamos nossa condição de limitados. Negar a morte e o sofrimento é negar a própria vida. Ao contrário de muitas espiritualidades por aí, que querem pregar um Deus milagreiro que faz tudo e que me "faz gozar" nos cultos, a Cruz é a assunção do limite para bem viver a ressurreição (isto não quer dizer masoquismo).


Enfim, estes são alguns dos elementos que podemos elencar, de vários, de considerações a respeito da cruz, que, ao meu ver, nada tem a ver com a leitura de nossa irmã Concí. Contudo, a discussão não está fechada. Quem se interessar comente este nosso post. Sua opinião é de fundamental importância.



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