sexta-feira, julho 13

II Encontro Provincial - Reflexões



Dos dias 13 a 15 de julho, eu, Pe. Victor, a Secretária Diocesana, Juliene Cândida, e Dom Orvandil participaremos do Segundo Encontro Provincial da Igreja Anglicana Tradicional do Brasil. De acordo com os organizadores, a temática a ser trabalhada será: Os desafios para o crescimento da Igreja no Brasil. Esta temática, por sua vez, é bem sugestiva. Falar de "crescimento" de Igreja hoje no Brasil, como sinônimo de desafio, é quase, se me permite dizer, piada. E, talvez, piada de mau gosto. O que mais vemos atualmente em nosso país é o crescimento de Igrejas de todos os tipos, espécies e gostos. Ao que parece, não há problemas, muito menos desafios, para o crescimento de uma Igreja em solo brasileiro. Ou pelo menos, não é o que "parece" ou o que "aparece", fenomenologicamente falando. O que há com nossa Igreja que não estamos nas estatísticas?

A palavra "crescimento" nos induz a semiologias diversas. O verbo crescer se aplica a realidades distintas como à fisiologia, à economia, ao conhecimento, à subjetividade etc, o que implica uma "polipragmatia", ou seja, um neologismo que mostra uma vasta aplicabilidade a realidades totalmente diferentes. Mas crescer também pode produzir sentidos distintos como, mudanças qualitativas, quando um sujeito chega e diz: "como fulano cresceu, tá mais maduro..."; ou mesmo aumento quantitativo, quando outro sujeito assim expressa: "meu filho cresceu, tá quase do meu tamanho!" Ou ainda, pode ser usada com as duas conotações qualitativas e quantitativas concomitantemente: "a economia este mês cresceu 2,5%". Enfim, crescimento é um troço muito ambíguo. De que crescimento, então, empregamos quando dizemos que crescer não é desafio para Igrejas no Brasil e de que crescimento queremos dizer quando afirmamos que nossa Igreja sente o desafio do crescimento? Seria simplesmente um jogo de linguagem? Ou há concepções eclesiológicas implícitas na terminologia crescimento que precisam ser esclarecidas?

Em sua grande maioria, a palavra crescimento é empregada pelas Igrejas de modo a nos fazer acreditar que há uma identificação pacífica e possível sem perdas semânticas e teológicas entre crescimento qualitativo e crescimento quantitativo. De que modo uma qualidade implica uma quantidade? Aristóteles já afirmava que o aumento qualitativo nada produz na qualidade. Contudo, a filosofia hegeliana buscou provar que as mudanças entre qualidade e quantidade são possíveis mediante um movimento dialético. Mas de que modo um crescimento pode ao mesmo tempo co-pertencer tanto à qualidade como à quantidade, como as Igrejas buscam passar? De onde elas retiram sua inspiração para que esse milagre possa ocorrer? É justamente aí que há problemas. 




É muito comum o uso do discurso teológico como justificativa para explicar uma identidade possível entre qualidade e qualidade. Deus, ou melhor, um discurso forjado sobre Deus, seria a condição de possibilidade para que o crescimento das cifras da Igreja reflita positivamente sobre a espiritualidade da mesma. Este tipo de discurso é muito comum na famosa Teologia da Prosperidade, não distinta do Judaísmo dos livros históricos dos textos sagrados, nem distinto de grande parte das teologias protestantes, pentecostais e neopentecostais. Este pseudo discurso procura harmonizar qualidade e quantidade mediante um devocionismo na "providência justa" de Deus que não falha em bonificar os que crescem economicamente e castigar os que nada possuem.

Mas onde estaria a verdadeira origem deste discurso? A grande "sacada" da modernidade e pos-modernidade, no que diz respeito às relações de quantidade e qualidade, foi a dos teóricos da economia capitalista. Enquanto os antigos se contentavam em equalizar qualidade e quantidade com o que os economistas chamavam de "lastro", se mantendo numa relação empirista, a sacada da modernidade foi justamente perceber que o rompimento com o lastro (o quantitável) nada afetaria a economia (o qualificável). Pelo contrário, tudo entraria no jogo das relações econômicas, pois tudo pode ser Mercado, aumentando, assim, o quantitável. Essa intuição mercadológica subjaz às mais piedosas explicações da teologia da prosperidade. A transformação da fé em mercasdoria, muito mais que estabelecer uma relação de troca com os deuses, inflacionou o mercado da fé criando a sensação de que quanto maiores são os valores a serem injetados na rede mercadológica da fé, mais qualidades espirituais estarão sendo produzidas. O importante é não deixar a bolsa de valores espirituais quebrar, e para tanto, o mercado deve continuar inflacionado.

Sendo assim, Igrejas de N denominações sobrevivem e crescem no país. O que nós esperamos quando buscamos o crescimento e identificamos desafios? Um palpite, eu gostaria de dar. Hoje, as Igrejas perderam seus lastros. Vivem na ilusão mercadológica e possuem um aparato ideológico poderosíssimo que justifica tudo isso. Contudo, a perda do lastro as fazem vacilar no volátil mercado da fé. Metaforicamente, o lastro é o dado antropológico da própria relação de revelação. Como alertava Karl Rahner, toda Revelação tem um dado antropológico que é condição de possibilidade da própria revelação. Substituir o dado antropológico da revelação pelo mercado conduz à ilusão de que espiritualidade se comunga com cifras monetárias e que Deus é perfeitamente expressável em notas promissórias. Acredito que e espero que este retiro se preocupe com a perda do lastro que as diversas propostas teológicas vomitam por aí. Este, ao meu ver, é o grande desafio que a palavra crescimento tem de cumprir, equilibrar a balança entre o quantitãvel e o qualitável.

Que Deus nos abençoe!


Um comentário:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir