A Festa da Trindade (último domingo), foi uma experiência muito rica para nossa Comunidade Sta. Joana D' Arc. A Trindade, depois da festa da Páscoa, talvez seja a festa mais importante para a fé cristã. Nesta festa, celebramos o modo de Deus ser Deus em nossa vida. Ela é considerada, pela tradição cristã, principalmente depois das reflexões do velho Agostinho, como um Mistério. Como conceber três pessoas num único Deus? A "cilada cristã" para escapar do politeísmo grego foi conceber as polaridades: o antropomorfismo grego e o monofisismo judaico numa única realidade. Enquanto os gregos se deliravam com seus panteões inundados de deuses que mais pareciam "gente", os judeus se fixavam, de modo veemente, com a acepção de uma divindade totalmente una e abstrata. Nesta dualidade entre a total imanência e a absoluta transcendência, o cristianismo fez morada.
Como influência direta de seu irmão mais velho - o judaísmo -, o cristianismo assumiu a ideia monifisista da transcendência divina. O deus cristão não poderia ter menos onipotência que o deus judaico, haja vista que o próprio Jesus reconhece que Javé é o "Senhor dos céus". Neste sentido, Javé, em sua absoluta transcendência frente às criaturas, é também o Adonai para os cristãos, é a abstração por excelência, é o Deus Criador. Na boca de Jesus, o Criador se transforma no Abbá! Mesmo na qualidade de Abbá, que literalmente pode ser traduzido como "papaizinho", ele não deixa de ser Aquele que está nos céus, como bem mostra a oração do Pai-Nosso. Isso indica que, apesar de Jesus incluir a subjetividade humana na compreensão de Javé, ainda sim, o Abbá não perdeu seu caráter totalmente transcendente, i. é, absolutamente independente das criaturas, o Criador.
Concomitantemente, o cristianismo viveu e se inseriu na cosmovisão helênica. O Helenismo, advindo da cultura grega, invadiu a cultura romana e consequentemente suas províncias, dentre elas, a Palestina. O cristianismo nascente bebe deste "veneno", sobretudo, com a presença de Paulo e João, que procuram dar ao cristianismo uma conformação eleática. Com Paulo, o carpinteiro de Nazaré recebe o véu da divindade, quando este Apóstolo proclama: o Xristós! A designação crística à Jesus confirma a universalização da natureza humana. Assim como os gregos, Paulo concebe uma unidade entre humanidade e divindade na pessoa de Jesus. O Abbá uranós (Pai celestial) assume a forma humana de Jesus e antropomorfisa o sagrado. O Sacrum deixa de ser "o separado" e se mistura à natureza humana, tal como os gregos já faziam. Jesus, elevado a condição de Cristo, confere um traço imanente à transcendência judaica.
Como portanto resolver este paradoxo? Um Deus todo transcendente ou um Deus com aspectos humanos? A resposta surge no meio do caminho. Nem afirmar a um, nem a outro, mas os dois modos são co-possíveis graças à ideia da relação. A relação provém da ideia grega do dia-logos. Dia, significa "por meio de..."; e Logos, significa "discurso". A relação, portanto, seria uma união por meio do discurso, da linguagem. Essa intuição platônica ajudou o cristianismo a repensar o seu Deus como aquele que se revela pela palavra, pela linguagem. A linguagem é aquela que põe em movimento, que cria o espaço para a manifestação. Daí, a Ruá judaica é tomada das tradições mais antigas para ser aquela que se revela pela linguagem. Aquela que torna a relação possível. A Ruá judaica é traduzida para o grego como Pneuma. O Pneuma é a linguagem que unifica e põe em movimento humanidade e divindade. Daí, a noção de Espírito Santo.
Neste movimento entre humanidade e divindade permeado pelo Logos do Pneuma, aparece a concepção de Trindade. Nem um politeísmo, nem um monofisísmo, mas simplesmente um Deus Trino. Uma relação reveladora e unificadora entre a humanidade e a divindade. Uma expressão de unidade e diversidade que se perfaz pelo discurso unificador. Um verdadeiro mistério cristão que tirou o sono de Agostinho e de tantos teólogos até hoje.
Há outros meios ainda de compreender a Trindade. Faço menção de uma "dita" heresia do século II e III chamada de Modalismo. Concebido pelos teólogos Noeto, Praxéias e Sabélio, o Modalismo acreditava que as pessoas que compõem a Trindade são, na verdade, modos de compreender a mesma realidade divina durante sua manifestação histórica. Na verdade, as pessoas da Trindade estavam diluídas numa única substância divina e seus modos de revelar é que se faziam distintos. Este Modalismo, de certo modo, é retomado por Hegel em sua Teologia Dialética. O Absoluto, a totalidade da divindade, em seu processo de auto-revelação nega a si mesmo se revelando como homem (Jesus). Este, por sua vez, é subsumido numa dupla negação (negação da negação), onde o Espírito, negando a absoluta humanidade de Jesus, é concebido como Cristo, assumido novamente sua co-pertença com o Absoluto. Só que, O Cristo, não é mais simplesmente a divindade nem a humanidade isoladas, mas é a subsunção da humanidade na divindade absoluta pelo processo dialético.
Pelo que se nota, a marca da Trindade está em como se dá o processo de relação entre as três pessoas (Pai, Filho e Espírito). Mais importante que as próprias pessoas, é a relação que se estabelece entre elas: dialogia, modalidade, negação, substancialização etc. Este é, portanto, o relevante ensinamento trinitário: estabelecer relações. As relações, no âmbito da antropologia, é uma condição sine qua non da própria condição humana. Somos seres relacionais por natureza, ou melhor, a única natureza que nos resta, depois da queda da metafísica, é a própria relação. Como diria o velho Kapra: "somos uma teia de relações". O condicionante trinitário é, portanto, a condição humana. Se há um processo criacionista, na qualidade de arché, a humanidade reproduz seu criador no que diz respeito à sua natureza: ser uma teia relacional.
Esta consciência antropológica foi visível na última festa da Trindade em nossa Comunidade. Nesta, tivemos a graça de experimentar esta teia de relações com a presença de novos visitantes em nossa comunidade. A presença do diferente enriqueceu nosso modo de agir e pensar e fez-nos ver quão temos ainda que aprender com o mistério da Trindade. Em suma, queria, a partir desta longa reflexão sobre a Trindade, apenas dizer aos nossos novos convidados: Obrigado pela sua presença!
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