Neste domingo (15/04), no qual celebramos a oitava da Páscoa, as leituras nos conduzem à seguinte temática: A fé na Ressurreição é compreender o valor da humanidade para a manifestação divina. Isto é possível a partir de três pontos: a fé da comunidade, o amor ao próximo e a partilha dos bens. A fé da comunidade é o núcleo da mensagem do Evangelho de João deste domingo (Jo 20,19-31). O relato da aparição de Jesus sem a presença de Tomé, muito mais que questionar a incredulidade do mesmo, nos faz refletir sobre que provas temos para a Ressurreição de Jesus. A tônica do texto parece não estar no empirismo exigido por Tomé, isto é, "tocar nas chagas de Jesus". Mas, ao contrário está no fato de que a Ressurreição não possui outra prova que a fé da comunidade. Não é atoa que João, em seu Evangelho, faz Jesus aparecer para Tomé, pela segunda vez, somente na presença da comunidade. Isto mostra que a grande prova da Ressurreição é a fé da comunidade. Portanto, crer na Ressurreição é compreender-se como parte de um processo histórico e comunitário, é aderir a fé da comunidade, que por si mesmo dá provas da Ressurreição.
Porém, se acreditar em Jesus ressuscitado é assumir a fé da comunidade, como saberemos se esta comunidade expressa esta Ressurreição? Para responder a esta pergunta, a Carta de João nos dá uma dica. Segundo a primeira Carta de João (1 Jo 5,1-6), a melhor expressão da fé na Ressurreição é crer que Jesus é o Cristo, ou seja, é acreditar que o homem Jesus manifestou em si mesmo a divindade. Neste sentido, João nos convida a resignificar a humanidade, a partir de Jesus, como o espaço privilegiado para a revelação de Deus. Contudo, esta revelação necessita de um ato concreto que o expresse. João entende que o melhor ato que expressa a revelação divina na humanidade é o amor. Assim ninguém pode amar a Deus senão conseguir amar ao próximo, ou seja, o amor aos irmãos é condição sine qua nom para o amor a Deus. Com efeito, a carta joanina deixa claro que amar a Deus é cumprir seus mandamentos. No entanto, mandamentos no contexto do texto não é sinônimo de lei, se tornando um peso, mas se refere ao comprometimento com aquele que amamos. Logo, amar a Deus é aceitar nossa humanidade e se comprometer com os irmãos, isto é Vitória de Cristo. Portanto, ao contrário do que muitos de nossos irmãos pensam, a compreensão de Vitória em Cristo passa por assumir o rosto de Jesus, o homem Deus que se estabelece nas relações de amor com o próximo.
Por fim, ainda poderíamos nos perguntar: de que modo viverei o amor para com os outros? Essa questão pode ser facilmente visualizada quando nos deparamos com a primeira leitura. O livro lucano de Atos nos ajuda a compreender que amar e se comprometer com os irmãos é assumir tudo o que ele necessita. A comum-unidade dos cristãos reveladas neste texto só é possível a partir da partilha dos bens. Isso quer dizer que, muito mais que rezar em comum e viver em comum, os primeiros cristãos de fato viviam uma verdadeira "reforma agrária" ou seja, conviviam a partir de um sistema ético que não permitia injustiças e desigualdades. Mais do que dar esmolas a quem precisava, a comunidade dos cristãos é reorganizaram seus sistemas ético-político e religioso de relação humana, o que expressava muito bem a ideia messiânica do Reinado de Deus.
Em suma, a oitava da Páscoa nos ensina o que é Ressurreição, ou pelo menos o modo como devemos compreendê-la em nossa vida diária, a saber, um modo de viver e experimentar o amor de Deus a partir da resignificação das relações humanas. Ou ainda, em outras palavras, é perceber que a Ressurreição não é um milagre desconexo com nossa humanidade, mas um reassumir nossa condição de humano para expressar o divino.
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