CREDENCIAIS DO AUTOR
José María Castillo Sánchez . Teólogo da libertação, espanhol , jesuíta até maio
de 2007, ano que abandonou a Companhia de Jesus. Doutor em Teologia, professor na Facultade de Teología de Granada,
professor convidado na Universidade
Pontifícia Gregoriana de Roma, na Universidade Pontifícia de Comillas em Madrid e na Universidade
Centroamericana "José Simeón Cañas" de El Salvador.
Sustenta uma visão muito crítica da
hierarquia eclesiástica. Em 1988 foi castigado junto a Juan Antonio Estrada com a retirada do “placet” da herarquia como catedrático de Teologia da Universidade de Granada, segundo Joseph
Ratzinger, atual papa, por suas opiniões sobre
a natureza da Igreja e sobre o mistério da Santíssima Trindade. Em Deus há
três pessoas, Pai, Filho e Espírito
Santo, sem dúvida, não há três Deuses,
senão, um somente. E a Congregação para a Doutrina da Fé considerou seus critérios incompatíveis com o magistério da
Igreja.
Jose María Castillo assume os dogmas, porém não renuncia a discussão de questões não dogmáticas.
[Tem sido vice-presidente da Associação de Teólogos e Teólogas
João XXIII. Atualmente se dedica a
coordenar, organizar, e ministrar cursos, conferências, congressos, seminários,
etc. por toda Espanha e Latinoamérica. Em
2010 foi nomeado Filho Predileto de seu povo natal, Puebla de Don Fadrique (Granada).
PERSPECTIVA TEÓRICA DO TEXTO
A obra “Deus e a nossa felicidade” (Dios y nuestra felicidad), publicada
pela Editorial Desciée de Brouwer em 2001, traduzida por Alda da Anunciação
Machado, e publicada pela Loyola em 2006; é posterior às obras: El reino de Dios : por la vida y la dignidad de los seres humanos (1999) e Símbolos de libertad : teología de los sacramentos (2001); e
anterior às obras: La Iglesia que quiso
el Concilio (2001) e El futuro de la vida religiosa : de
los orígenes a la crisis actual (2003). Já o texto “O
nome próprio de Deus”, objeto desta resenha, compõe o quarto capítulo desta
obra de Castillo, sendo precedido pela Introdução e mais dois capítulos
intitulados: “Deus funde-se com o humano” e “Matar o fariseu”; e sucedido por
outros dois: “O Deus da Igreja” e “Reflexão final: que Deus eu creio?”.
Do ponto de vista formal, o texto é
bastante simples e de linguagem bem acessível, recheado de exemplos
(facilitando a compreensão) e justificado, sem muito exagero, com citações de
grandes nomes de teólogos como Joachim Jeremias, Küng, Rahner, Domínguez, entre
outros, que fazem a fundamentação necessária. Do ponto de vista do conteúdo, o
texto é denso e expressa uma pesquisa cuidadosa, principalmente no que diz
respeito às interpretações teológicas recentes. Destaca-se também, o rico
material bíblico e sua atualizada exegese.
A leitura teológica de Castillo,
como lhe é bem próprio, possui um fio condutor mais próximo da “Teologia da
Libertação”, do que uma leitura mais tradicional e ortodoxa. Contudo, este não
se prende a ela, mas a amplia com dados teológicos distintos (como Rahner, J.
Jeremias) e atuais dando um corpo interpretativo mais denso teologicamente e
menos pretensamente sociológico. Isto deixa sua obra com uma riqueza teológica
distinta: um conteúdo libertador em molduras teológicas ao estilo europeu.
SÍNTESE DO TEXTO
O quarto capítulo da obra de
Castillo – “O nome próprio de Deus” – é longo (em torno de 60 páginas), possuindo
treze divisões e trata, de modo geral, da questão de Deus enquanto Pai. A primeira
parte, “o Pai”, introduz o tema da paternidade divina trazendo presente a
experiência, tanto de Jesus como das primeiras comunidades cristãs, de Deus
como Abbá. Contudo, alerta Castillo
que quando se fala do Pai não se refere à primeira pessoa da Trindade, pois
esta formulação é posterior às experiências bíblicas, sendo definidas nos
embates dos Concílios do século IV. Neste sentido, o Pai, remete à pessoa de
Deus que está sob a tensão da transcendência e da encarnação.
A segunda parte o autor trabalha “a
complexa relação com o Pai”, ou seja, justamente aquilo que se experimenta
quando se pensa na figura do Pai. Quatro são as possíveis representações da
imagem paterna: proteção, segurança, explicação e autoridade. Não obstante,
tais representações quando remetidas a Deus possuem suas respectivas
dificuldades: o sofrimento da vida invialibiza a representação tanto da
proteção quanto da segurança; o avanço científico, derruba o papel divino de
explicar a realidade; e a experiência da punição retira a confiança da
autoridade divina. De modo geral, a vivência da paternidade humana é barreira
para a vivência da paternidade divina.
A terceira parte discute a
influência que uma cultura caracterizada pela predominância masculina (e com
isto a preferência pelos valores da força e da violência) em detrimento da
femilinidade (da sensibilidade e da compreensão) causa na expressão da fé em
Deus. Isto, portanto, reflete na repressão sexual, moralmente negativante, tão
comum em todas as grandes religiões, pois, o pai é aquele que desfaz a imagem
prazerosa construída durante a gestação de uma fusão entre a criança e a mãe. A
quarta parte tenta dar uma primeira resposta às “falsas imagens de Deus”
construídas. Para tanto retoma a “Parábola dos Talentos” mediante a exegese de
J. Jeremias que relê esta não mais com um olhar “exortativo” ou moralizante,
senão com um olhar teológico que identifica qual tipo de Deus deve ser evitado,
i. é, o Deus que se comporta como o “Senhor do Talentos”, que pede contas,
pregado pelos fariseus. Este, sem dúvida, não é o Abbá de Jesus.
A quinta e sexta parte, por sua vez,
falam das características que se aproximam do Deus de Jesus. A primeira é feita
pelo estudo exegético da “Parábola do Filho Pródigo”. A intenção desta parábola
é de rebater os fariseus na sua concepção de Deus. Enquanto estes estão presos
no merecimento (figura do Filho mais velho), o Deus de Jesus é aquele que
acolhe aqueles que estão necessitados e desamparados. Isto quer dizer que, a
parábola é uma resposta aos fariseus de “como é Deus” na visão de Jesus. A
segunda pela exegese da “Parábola do Administrador da Vinha”, que refuta a
concepção dos fariseus de Justiça Divina a partir do olhar e da lógica humana.
O Deus de Jesus não é aquele que age segundo “méritos”, mas segundo sua
“generosidade”.
A sétima, a oitava e a nona parte
Castillo discutem a questão do mal. Se o Deus de Jesus é sumamente bondade e
não castiga ninguém (como resultado da quebra da lógica do merecimento
farisaica), como explicar a origem do mal? Para o autor, esta antinomia não é
possível ser respondida, pois, tanto culpabilizar a Deus (o querer divino) como
o homem (o permitir divino) incorrem em ter de admitir uma falsa imagem de Deus
que não corresponde à imagem passada por Jesus. Neste sentido, o melhor a fazer
é admitir que a questão do mal relacionada com a questão de Deus não possui uma
solução acessível.
A décima parte é uma síntese fruto
da antinomia: a questão Deus e a origem do mal, exposta nas três partes
anteriores. Esta síntese é caracterizada por seis tópicos: 1) a fé em Deus como
aquilo que brota da experiência; 2) a transcendência de Deus como
impossibilidade de responder sobre a questão do mal; 3) o conhecimento de Deus
por meio de Jesus de Nazaré; 4) a afirmação de que Deus não é o autor do
sofrimento humano; 5) a questão de Deus não pode estar relacionada com a origem
do mal; 6) o problema da eficácia da oração. Afirmados este seis portulado,
Castilho se pergunta, na décima primeira parte sobre a existência do Inferno.
Para ele, o inferno também é um problema que afronta a imagem de Deus passada
por Jesus. Assim, o mais prudente é, por um lado, recorrer aos textos
neotestamentários que em nada mencionam sobre uma “geografia do mundo do além”
e, por outro, ter a consciência que não se sabe se a justiça divina reage como
a humana diante de tanta injustiça.
A décima segunda parte reafirma a
tese central deste capítulo: “Deus é sempre bom” mediante a citação de Mt
5,44-48, na qual alguns dados são analisado pelo autor (não em sentido moral,
mas sob a ótica teológica de quem é Deus) como: o amor aos inimigos, a
perfeição como sinônimo de bondade, e a bondade de Deus sobre justos e injustos.
A partir da exegese desta perícope, Castillo afirma que: “Deus não reage diante
do mal ou diante do bem como nós reagimos”, pois ele é transcende as categorias
de bom e de mal. Isto significa que “Deus nos quer sempre”. Tais afirmações não
ficam ilesas das críticas de Feuerbach sobre a projeção divina, porém, com as
seguintes ressalvas, não seria o próprio Deus uma “projeção humana”, mas na
compreensão humana de Deus, se projeta nela suas experiências profundas como a
limitação. E por fim, Castillo faz sua conclusão: “Não importa o caso, fique
claro que a mensagem central de Jesus não se refere ao castigo e à ameaça, mas
sim à vida e à esperança”.
PRINCIPAIS TESES E CRÍTICAS DESENVOLVIDAS NO TEXTO
O texto aqui resenhado possui uma
tese central, a saber, a identificação da imagem de Deus como Pai com o Abbá de Jesus: “Jesus desmonta o
‘fantasma do pai’, que pesa e oprime na intimidade de muitas pessoas”. Para
tanto, Castillo faz um caminho de desconstrução e reconstrução. As quatro
primeiras partes do texto, aqui consideradas como desconstrução, fazem a
discussão da imagem do pai no ser humano. Sob a égide das quatro representações:
poder, autoridade, explicação e autoridade; a imagem do pai, além de se
constituir como necessária, se mostra também como castradora, principalmente
sob o ponto de vista sexual.
Castillo,
em sua desconstrução, apresenta muito bem o problema da “complexa relação com o
Pai”, e como esta interfere nas relações com Deus. Contudo, peca em não apontar
uma possível saída para este embate, primeiramente em ordem humana, uma vez
que, a saída encontrada por este autor, na fase construtiva, é, de imediato, a
substituição da imagem de Deus pelo Abbá
de Jesus, o que não significa que a imagem do pai será automaticamente
substituída. De outro modo, se o problema da relação com Deus está sendo
afetado pelas experiências humanas de paternidade, é suficiente apenas mudar o
conceito de Deus Pai para o Abbá de
Jesus? É suficiente a mudança teológica para um problema de ordem cultural? E o
que fazer com a lacuna da imagem do pai, o Abbá
de Jesus responderia a estas angústias humanas? Por mais que se fale que o Abbá seja não só um conceito, mas uma
experiência, haveria ele de escapar daquilo que Feuerbach já alertou e que o
próprio Castillo concorda, ou seja, que a recepção de Deus não é pura mas
projetada pelas experiências humanas?
Uma possível saída para este
problema da imagem do pai em níveis humanos, Catillo “toca”, mas não
desenvolve. Quando este menciona o dado cultural da ausência da femilinidade, o
faz de modo justificativo do problema da imagem do pai. Porém, neste dado, há
não só uma justificação, mas também, uma saída possível. Se o autor tivesse
aproveitado o dado da “ausência da mãe” e o desenvolvido como um modo cultural de
equilibrar a imagem humana do pai, e não somente como uma justificativa da
falência da paternidade, acredita-se que se construiria uma base mais sólida
nas experiências humanas, não deixando a lacuna da imagem do pai para ser
resolvida no plano teológico, como faz o autor. A isto deve ser acrescido
também o fato de Castillo só mencionar o famoso argumento de Freud sobre o
“complexo de Édipo”, no qual Queiruga (1993) faz uma excelente abordagem, que,
poderia também ser uma alternativa para recuperar a experiência da paternidade.
A fase reconstrutiva é marcada por
uma apresentação exegética de duas parábolas e uma perícope, a saber: “Parábola
do filho pródigo” (Lc 15, 11-32), “Parábola do administrador da vinha” (Mt
20,1-15) e a perícope do Sermão da montanha (Mt 5, 44-48). A primeira parábola,
Castillo trabalha o modo como o Abbá
de Jesus se comporta frente aos “desamparados” e “perdidos”; a segunda trabalha
o modo como o Abbá concebe a justiça;
e a perícope ressalta o modo como o próprio Abbá
é. Nas três passagens, salienta o autor, que há uma intenção clara de confronto
com a imagem de Deus dos fariseus. Sob a perspectiva exegética de Castillo, que
retoma J. Jeremias, nada há que dizer, apenas aplaudir.
Contudo,
ao trabalhar o modo de compreensão do Abbá
de Jesus, este entra num embate que depois se vê obrigado a abandonar, a
questão da origem do mal. A solução encontrada por este teólogo, e que ele
mesmo reconhece, não é suficiente para abordar tamanha briga (como é a questão
do mal), mas possui uma dose de prudência. O simples fato de dizer que em
perspectiva humana nada se pode dizer a respeito do mal e que esta temática
deve ser desvinculada da questão de Deus é tão insuficiente quanto a posterior
afirmação categórica da bondade de Deus como reconhecimento de sua não autoria
do mal. Ao afirmar que nada se sabe sobre a questão do mal seguida de uma afirmação que Deus não é autor
do mal, parece muito mais um argumento que queira salvaguardar a imagem do Abbá do que uma conclusão teológica
suficiente. Como dizer que Deus não é o autor do mal se nada sabemos sobre
isso? Como o problema do mal pode contribuir para resolver a lacuna da imagem
do pai? São problemas que Castillo não responde. Talvez, o melhor seria não ter
entrado neste assunto. Entende-se que a intenção era afirmar que Deus não
castiga nunca, mas mesmo assim, tocar num assunto tão denso e tão problemático
e dar uma solução tão pobre e sem propósito como dada pelo autor, não valeria a
pena nem ter tocado neste assunto.
Por
fim, o autor acredita que reconhecendo o modo como o Abbá de Jesus se
manifesta, a imagem de Deus Pai pode ser recuperada sem prejuízos. Do ponto de
vista teológico, há de se concordar com Castillo, mas quando se entra no plano
da experiência diária, há ainda algumas lacunas que carecem de melhores
explicações. Mesmo assim, as reflexões de Castillo são válidas e merecem uma
séria consideração, principalmente pela mudança de paradigma que este teólogo
busca embrenhar.


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